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Sweetener

Ser feliz com adoçante!

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16
Mar17

O dia do pai

Acho que nunca foi surpresa por aqui o facto de raramente falar do meu pai. Pai... Será que posso sequer chamar-lhe isso...? Já houve tanta volta nesta relação que devia ser das mais fortes. Há muita (ou talvez nem seja assim tanta) história. Os muitos e diferentes sentimentos, de diferentes dimensões neste capítulo da minha vida. Porque na verdade, eu já tive um pai.

 

Nos meus primeiros anos, tive aquilo a que se chama pai. Ele dava-se ao trabalho de o ser. Fazia por ter tempo para brincar comigo, preocupava-se e era uma pessoa muito atenta, talvez até a mais atenta. Queria acompanhar todos os meu sucessos mas também confortar-me nos meus fracassos. A minha irmã também fazia parte da cena, mas sendo mais nova, acho que nunca absorveu tantas memórias boas como eu. Talvez seja por isso que me custa mais aceitar. Custa, custou durante todos estes anos e continua a fazer me uma enorme confusão. Sempre que ele fazia alguma coisa bem, compensava com quatro ou cinco erradas. Porque será que isto acontecia? Se era meu pai, não seria suposto amar-me mais que tudo? Não seria suposto ter orgulho nas filhas que tinha? Não seria suposto comportar-se, como se comporta a minha mãe?

 

Tudo começou a mudar quando a família de mudou para Portugal. Para além de ter deixado de ser marido, deixou também de ser pai. Como consequência, pouco tempo depois chegou o divórcio. Divórcio este que também incluiu as filhas. (Isto para não falar em toda a família da parte dele, que foi pelo mesmo caminho). Durante anos, a minha mãe incentivou a aproximação. Quantas não foram as vezes que aquela mulher insistiu para lhe ligar-mos, para falar com ele. E nós, liga-mos. Mais que uma vez, mais que duas. Um almoço aqui, um lanche ali, encontros meramente esporádicos, de conhecidos, mas nunca das pessoas que éramos na verdade.

 

É estranho, sabem? Saber que aquela determinada pessoa deveria ser nosso pai e termos sentimentos por ela mas existir só um vazio. Uma ausência de sentimento. E tantas vezes me culpei por isso, tantas vezes me chamei os piores nomes apenas por ter estes pensamentos.

 

Continuei a tentar. Ele não ligava, ligava eu. Ele não perguntava como eu estava, perguntava eu. De certa forma, forcei a relação. Porque eu queria que houvesse relação. Mas depois de tantos anos, não seria ingenuidade da minha parte? Não deveria saber já que tal não era possível?

 

A derradeira tentativa, foi esta: vir morar com ele e com a companheira atual. Numa altura em que me desempreguei, nem cheguei a procurar trabalho porque decidi que queria saber daquilo que eu própria era capaz. Libertar me das amarras do que acontecera na Inglaterra, ter a certeza que a relação em que estou tem futuro (Resultou! A distância fez-nos bem e estamos mais unidos que nunca!), saber como era, depois de tantos anos, voltar a conviver e viver com o meu pai.

 

Na primeira semana correu tudo bem, em todos os sentidos. Cheguei a acreditar que era possível resolver anos de ausências, de desilusões, de expectativas furadas. Dois meses depois, é me mais que óbvio que isto não resultou. Pelo menos não da forma que planeei. Estou a viver literalmente num campo de batalha, e eu sou claramente o alvo a eliminar. Ele - morde pela calada. Na minha frente é tudo uma delícia, por traz julga-me por todo o meu presente, passado e quaisquer ideias de futuro. Ela, nem sei bem o que dizer. Nunca quis acreditar naquela história de que as madrastas são 'más' mas não restam muitas dúvidas aqui... Tenho me esforçado imenso mas não consigo entender o objetivo inicial deles. Se não me queriam cá, porque me incentivaram a vir, me prometeram mundos e fundos, até para o Doce, e logo a seguir me dão um pontapé no rabo?

 

Custou-me tomar a decisão mas não aguento mais o clima aqui vivido. A constante falta de entre-ajuda, as conversas altas propositadas para eu ouvir, as constantes piadas e indiretas. Já estive suficientemente perto de uma depressão para me oferecer voluntariamente a uma recaída. 

 

No próximo Domingo é dia do pai. Pai... Será que posso sequer chamar-lhe isso? Sinto que finalmente tenho a resposta. Não posso chamar pai a alguém que há muitos anos não o é. Parece-me também injusto felicitar ou presentear alguém num dia dedicado às pessoas que se preocupam verdadeiramente com os filhos. Ele não representa praticamente nada na minha vida, nem na da minha irmã. Por isso, para mim, este Domingo será apenas mais um Domingo.

 

O Domingo ideal para eu regressar a Portugal.

 

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